My world. My words

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João Pessoa, PB, Brazil
Assim como o mar: Certos dias, sou calmaria; Noutros, intensidade.

sábado, 19 de maio de 2012

Falsos mestres

Não confio em ti
Porque tua voz, embora entoada docemente,
soa como grito aos meus ouvidos;
Me grita a tua audácia em pensar que sois vítima da má sorte.

Não confio em ti
Porque tua aparente calma não é calma: é controle.
Cada palavra parece ensaiada para tocar fundo
E exatamente por isso é que não toca.
Sabes intuir e te orgulhas do que és capaz de 'receber' ou 'curar'

Te colocas em posição de  mestre sem que tenha sido elegido como tal.
Tu traças um pressuposto pobre e pueril a meu respeito 
Mas não há prece ou canções sagradas
que substituam o respeito verdadeiro.

Podes encher tua casa e tua boca com orações prontas ou intuídas
Mas nenhuma palavra vinda de ti convencerá
Enquanto não se enxergar a concretização da coerência entre teu ideal de vida, pensamentos e práticas.

Ainda que o mundo te vangloriasse,
ainda assim, eu te consideraria uma farsa.
Antes de pretenderes ser mestre,
faça um bem para a humanidade: cuida-te de ser mestre de si mesmo,


E desvista-se da máscara da hipocrisia.
As pessoas sábias conseguem silenciar
e compreender que somente a vida é capaz de ensinar com maestria. 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sobre a vaidade


Quem nunca disse ou fez algo no intuito de se exibir? Aparecer, chamar a atenção sobre si, se sobressair na multidão?? Mesmo os mais discretos podem usar do próprio recato como uma forma de se diferenciar dos demais. É normal, é humano. Admitam. Ninguém está aqui condenando coisa alguma.

Às vezes a gente quer aparecer e nem mesmo admite. Há muitas formas de querer se afirmar ou simplesmente receber um pouco de afeto, que são veladas, talvez porque se tenha vergonha de assumir que, no fim das contas, o que se quer mesmo é chamar a atenção. Simples assim.

Você pode ter um corpo exuberante, uma cultura geral fantástica ou ainda uma polpuda conta bancária... vai me mentir que nunca usou uma dessas coisas para se achar mais importante, mais belo, mais rico, mais socialmente aceitável do que os humildes mortais?

Parece ser inerente ao ser humano usar os dons que recebeu ou as coisas que conquistou como forma de afirmar-se diante dos outros. "Eu sou talentoso, então sou especial". "Sou bela, então a natureza me agraciou". Doce ilusão.

Isto seria apenas mais uma face engraçada do nosso comportamento se não tivesse como raiz uma insegurança absurda em ser o que se é, simplesmente, sem precisar mostrar competência, conhecimento ou afirmar o próprio valor a cada 15 minutos.

Uma conta bancária recheada te traz mais conforto e segurança material. Ponto. Você não terá mais amigos por causa disso. O que você pode ter é mais gente puxando o seu saco porque quer o que você tem. Quanto à beleza, ela certamente faz muito bem aos olhos, torna a pessoa mais atraente. Mas qualquer mulher sabe que não será mais amada porque tem o rosto ou a bunda bonita. Você conseguirá chamar mais atenção e atrairá homens que te desejam sexualmente. E pronto. Isso não garante nada, caia na real.

Você também pode ser sedutor e deixar um rastro de mulheres apaixonadas e com o coração destroçado atrás de você. Grande merda. Cada uma delas lembrará de você como um canalha e acabará nos braços de um homem mais sensível, que tenha algum conteúdo. Você também pode ter um talento extraordinário pra qualquer coisa que seja. Isto significa apenas que você terá desempenho fantástico naquela área específica. Pode ser que no restante de sua vida você se comporte de forma quase tola e acabe por estragar até mesmo seu próprio dom.

Você também pode destroncar a língua falando difícil pra exibir sua cultura. Pode citar um milhão de autores, o que não quer dizer, de forma alguma, que você tenha idéias próprias. Você pode ter um cargo importante e comandar pessoas que dependem de suas decisões. Mas não se anime demais: você pode adoecer, perder, chorar e se desiludir igual ao mendigo da esquina. Aquele que você tem a impressão de que tem menos poder do que você, porque ele não usa terno.

Mencionar vitórias e conquistas, no fundo, pode ser apenas um meio de atrair olhares. Isso é humano, todas as pessoas do mundo querem atenção. Ninguém no planeta é tão independente que não se importe com o fato de ser odiado ou de passar despercebido. Mas não é melhor quando as pessoas nos amam também pelas nossas fraquezas?

Por que você acha que todos amam os bebês? A vulnerabilidade natural deles não dá um toque de inocência; não é uma fofura? Eles não fazem algo específico pra atrair afeto e, talvez por isso mesmo, o atraiam tanto. A naturalidade atrai. A inocência também.

Cadê a nossa inocência? Por que precisamos provar o atrasou tempo todo que somos bons e não nos contentamos em existir e evoluir naturalmente, como tudo o que vive no universo? Será que só mostramos as nossas vitórias porque não aceitamos a nós mesmos? E afinal, o que há de tão vitorioso em todo este fingimento?

Tudo na vida você pode perder. A única coisa que fica é você mesmo, sem adereços. Me parece que, no fim das contas, a grande vitória é conseguir ser o que se é, sem tantos enfeites e artificialismos. E sem contaminar-se por este fogo cruzado de vaidades que encobrem um medo brutal de não ser aceito.

Por: Juliana S. Davi

domingo, 6 de maio de 2012

Ser Mãe: Um constructo diário


A minha gravidez não foi planejada; tampouco a notícia foi celebrada por mim e pelo pai. Engravidei acidentalmente do meu primeiro relacionamento, azar este que terminou antes mesmo de eu ter o conhecimento sobre o meu filho. Eu me sentia grávida de um adolescente do interior, deslumbrado com a vida na cidade grande. Confesso, não foi fácil. Acredito que nenhuma mulher deseja dar a luz sozinha. Eu, pelo menos, não queria. Foram nove meses onde vivi o maior paradoxo de emoções da minha vida... Apreensão, incertezas, ansiedade, medo, revolta... paz, senti um amor tão puro, e felicidade! Estranho mesmo é sentir na pele todo esse turbilhão.
Grávida? Eu? Impossível! Eu nunca tinha sequer segurado um bebê no colo ou sonhado com esse fato tão cedo em minha vida. Poderia passar horas na frente de um computador discutindo filosofias vãs, mas, não parava a minha vida para admirar uma criança no shopping.
Passei noites em claro, todos os dias, buscando soluções e, nos intervalos, clamando a Deus por misericórdia e socorro. Eu não cochilei. Eu precisava assumir para mim mesma que deveria levar adiante a gestação com otimismo, para não prejudicar mais a minha saúde e a do meu filho.
O mundo parecia não fazer sentido. A minha vida tinha tomado um rumo completamente fora do meu controle. Onde estava aquela pessoa prática e segura de si, que sempre acreditou na auto resolução de seus problemas? A gravidez tinha roubado a minha personalidade? A notícia tinha certamente me desestabilizado. Me sentia sozinha.
Uma das frases que eu mais ouvi durante a gestação foi: “Tente ser tolerante e use da sabedoria porque homem só se torna pai quando o filho nasce”. Então, quer dizer que a mulher ao engravidar já se sente mãe? Absurdo! Infelizmente a sociedade ainda carrega uma visão muito distorcida desses casos.
Grávida e solteira. Meu Deus! E agora? O que seria da minha vida? E os planos, metas traçadas, pós-graduação, cursos, estágios, pesquisas, trabalho? Tinha sido tudo em vão? A minha vida tinha chegado ao fim? Como construiria minha vida agora com um bebê? A minha angústia crescia junto com a minha barriga.
Foi uma gestação de indagações. Cheguei a fazer terapia para entender porque eu não tinha uma gravidez cor de rosa e poética como todas as outras mulheres grávidas que os livros, novelas e filmes vendiam. Eu não me encaixava naquele padrão de mulher que chega ao ápice de felicidade por estar grávida. Mas a sociedade me cobrava este comportamento. Quantas vezes não ouvi de amigas: “Você não está feliz? Tem de aproveitar esse momento único na vida”.

Me sentia um ser humano desprezível, por não conversar e não amar a minha barriga. Onde estava aquele amor materno instintivo? Eu obrigada a ser feliz com esta nova realidade.
Fisicamente eu tive uma gravidez maravilhosa. Mas psicologicamente foi uma saga em busca de redescobrir quem eu era. Hoje, eu tenho certeza de que a minha gravidez não foi planejada por mim, mas sim por Deus. Aquela menina egocêntrica antes da maternidade já não existe mais. Não há palavras que descrevam o tamanho do carinho e régua que se mensure  a proteção que se pode ter por um filho. O amor materno, na minha concepção, é um amor construído no dia a dia. Amor este que se expressa nos pequenos gestos de carinho, proteção e cuidado. Eu nunca imaginei que uma coisa tão pequenina pudesse mudar tanto uma vida, e todo um templo secreto de emoções. Ser mãe é a melhor experiência que uma mulher pode viver!


UM FELIZ DIA DAS MÃES A TODAS AS MAMÃES, E NUNCA ESQUEÇAM: FILHOS CRESCEM, APROVEITE O SEU HOJE MESMO!!! =)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Estranha e doce espera

É estranho eu esperar pra ter nos braços alguém que está agora mais perto do meu coração. E arrumar nosso lar aqui pra te receber enquanto você mora em mim. Essa espera é sentir uma saudade quase doída de alguém que ainda nem vi, mas já conheço. É como aguardar ansiosa um postal de um amigo de longa data que sempre esteve no meu quintal. É saber que não importa o quanto chova hoje, que amanhã vai ser um dia de sol.

É aquela música que eu sei cantar sem nunca tê-la ouvido. Justo eu, sempre correndo tanto contra o tempo! Hoje, apenas sinto ele passar por mim... E ele bate suave nos meus pés como onda mansa. Confesso que caminho um pouco apreensiva, um tanto desajeitada aqui e ali, abrindo as asas, arrumando o seu ninho e eu, justo eu, que nem sei ainda voar!
Esperar você é olhar uma moldura sabendo que um dia uma obra de arte estará ali. É seguir por um caminho que nunca passei, e mesmo assim ter a certeza de que não importa aonde for, a partir de agora estamos indo para a casa.

terça-feira, 19 de julho de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Hábito

E qual é o mal em contestar tradições? O mal estaria apenas em contestar hábitos, coisas que não temos acesso e que seria apenas justa, a falta de contestação. Fugir da chuva. Tal covardia sempre desce em nossas mentes na sensação da primeira gota. Correndo, achando que chegaríamos a algum lugar, e sem sabermos que uma hora iríamos secar. O desespero daquele litro que nos molha é inválido em relação ao nosso medo de nos molhar. Corramos do céu que nunca iremos escapar. Nós mesmos. Hábitos não passam de segredos em que não há vontade de serem contados, ou ações encobertas pela vergonha de parecer um estranho. Mas para a felicidade das exceções, vivemos em uma terra de estranhos, onde não conseguimos interpretar nenhum olhar, dos trinta, que nos serviram como espelho ao longo do dia. Aquele “gosto de você ”- que recebeu há meses, horas, segundos atrás -, pode ser considerado agora uma piada, ou apenas um hábito. Por isso, deveríamos contestar sim! Contestemos os hábitos que se tornaram tradições globais, que nos envolvem sem nos pedir licença, e que nos largam sem dizer adeus. Consista em ser justo consigo mesmo. Já temos diferenças demais para criarmos uma que seria irreparável. Não obrigue ninguém a se sentir melhor do que realmente se sentiria, a falsidade da palavra e a indiferença do olhar já derrubou impérios, agora, derruba corações.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Um amigo meu disse que eu...

Deveria pensar mais a respeito do assunto, já que também sou adulta. E que são nessas exatas situações que podemos saber quem realmente tem esse dom: o de expressar a magnitude da força interior e raciocinar. Na hora não quis contrariá-lo, ele estava tão empolgado com seu magnífico discurso irredutível que deixei passar. Não deveria. Acabou por ir embora todo sorridente, um sorriso cheio de razão. Com aquele sorriso, fruto de quem pensa que sabe, e não sabe. Não que eu saiba tudo sobre mim, ao contrário, mas, pelo menos não fico rindo à toa, cheia de falsas verdades ou razões.
Já outro amigo me falou que não é nada disso, que para nos conhecermos, ou conhecermos o próximo é preciso tempo, silêncio e observação. Coisas quase improváveis nos tempos apressados e barulhentos de hoje. Concordei em parte, mesmo porque, acho tão pouco somente o tempo, silêncio e observação em se tratando de autoconhecimento. Imagine, então, conhecer o outro.
"É preciso mais" - disse-me um outro amigo, certa vez, apenas com o olhar - , ainda que não soubesse conceituar esse dom; ele vivia a maturidade com todas as suas forças, talvez porque vivesse todas as outras coisas da vida com a mesma intensidade. Não era, tão somente, um amigo que estava alí. Alí estava uma pessoa inteira. Um homem com vida própria, sabedoria de seus anseios mais simples, consciente de que na vida, além de escolher; é preciso resignar-se das perdas naturais, e quem sabe até: necessárias!
Na foto: Lya Luft

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Olhe,

Tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calma e perdôo logo. Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre. Sou paciente mas profundamente colérica, como a maioria dos pacientes. As pessoas nunca me irritam mesmo, certamente porque eu as perdôo de antemão. Gosto muito das pessoas por egoísmo: é que elas se parecem no fundo comigo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O que da vida não se descreve...

Eu me recordo daquele dia. O professor de redação me desafiou a descrever o sabor da laranja. Era dia de prova e o desafio valeria como avaliação final. Eu fiquei paralisado por um bom tempo, sem que nada fosse registrado no papel. Tudo o que eu sabia sobre o gosto da laranja não podia ser traduzido para o universo das palavras. Era um sabor sem saber, como se o aprimorado do gosto não pertencesse ao tortuoso discurso da epistemologia e suas definições tão exatas. Diante da página em branco eu visitava minhas lembranças felizes, quando na mais tenra infância eu via meu pai chegar em sua bicicleta Monark, trazendo na garupa um imenso saco de laranjas. A cena era tão concreta dentro de mim, que eu podia sentir a felicidade em seu odor cítrico e nuanças alaranjadas. A vida feliz, parte miúda de um tempo imenso; alegrias alojadas em gomos caudalosos, abraçados como se fossem grandes amigos, filhos gerados em movimento único de nascer. Tudo era meu; tudo já era sabido, porque já sentido. Mas como transpor esta distância entre o que sei, porque senti, para o que ainda não sei dizer do que já senti? Como falar do sabor da laranja, mas sem com ele ser injusto, tornando-o menor, esmagando-o, reduzindo-o ao bagaço de minha parca literatura? Não hesitei. Na imensa folha em branco registrei uma única frase. "Sobre o sabor eu não sei dizer. Eu só sei sentir!" Eu nunca mais pude esquecer aquele dia. A experiência foi reveladora. Eu gosto de laranja, mas até hoje ainda me sinto inapto para descrever o seu gosto. O que dele experimento pertence à ordem das coisas inatingíveis. Metafísica dos sabores? Pode ser... O interessante é que a laranja se desdobra em inúmeras realidades. Vez em quando, eu me pego diante da vida sofrendo a mesma angústia daquele dia. O que posso falar sobre o que sinto? Qual é a palavra que pode alcançar, de maneira eficaz, a natureza metafísica dos meus afetos? O que posso responder ao terapeuta, no momento em que me pede para descrever o que estou sentindo? Há palavras que possam alcançar as raízes de nossas angústias? Não sei. Prefiro permanecer no silêncio da contemplação. É sacral o que sinto, assim como também está revestido de sacralidade o sabor que experimento. Sabores e saberes são rimas preciosas, mas não são realidades que sobrevivem à superfície. Querer a profundidade das coisas é um jeito sábio de resolver os conflitos. Muitos sofrimentos nascem e são alimentados a partir de perguntas idiotas. Quero aprender a perguntar menos. Eu espero ansioso por este dia. Quero descobrir a graça de sorrir diante de tudo o que ainda não sei. Quero que a matriz de minhas alegrias seja o que da vida não se descreve...

Padre Fábio de Melo

sábado, 9 de outubro de 2010

Mulher Despida

"
Depois da invenção do photoshop, até a mais insignificante das criaturas vira uma deusa, basta uns retoquezinhos, aqui e ali. Nunca vi tanta mulher nua. Os sites da internet renovam semanalmente seu estoque de gatas vertiginosas. O que não falta é candidata para tirar a roupa. Dá uma grana boa. E o namorado apóia, o pai fica orgulhoso, a mãe acha um acontecimento, as amigas invejam, pudor pra quê?
Não sei se os homens estão radiantes com esta multiplicação de peitos e bundas.Infelizes não devem estar, mas duvido que algo que se tornou tão banal ainda enfeitice os que têm mais de 14 anos.Talvez a verdadeira excitação esteja, hoje, em ver uma mulher se despir de verdade... emocionalmente.
Nudez pode ter um significado diferente e muito mais intenso. É assistir a uma mulher desabotoar suas fantasias, suas dores, sua história. É erótico ver uma mulher que sorri, que chora, que vacila, que fica linda sendo sincera, que fica uma delícia sendo divertida, que deixa qualquer um maluco sendo inteligente.Uma mulher que diz o que pensa, o que sente e o que pretende, sem meias-verdades, sem esconder seus pequenos defeitos.
Aliás, deveríamos nos orgulhar de nossas falhas, é o que nos torna humanas, e não bonecas de porcelana. Arrebatador é assistir ao desnudamento de uma mulher em quem sempre se poderá confiar, mesmo que vire ex, mesmo que saiba demais.Pouco tempo atrás, posar nua ainda era uma excentricidade das artistas, lembro que esperava-se com ansiedade a revista que traria um ensaio de Dina Sfat, por exemplo - pra citar uma mulher que sempre teve mais o que mostrar além do próprio corpo. Mas agora não há mais charme nem suspense, estamos na era das mulheres coisificadas, que posam nuas porque consideram um degrau na carreira. Até é. Na maioria das vezes, rumo à decadência. Escadas servem para descer também.
Não é fácil tirar a roupa e ficar pendurada numa banca de jornal mas, difícil por difícil, também é complicado abrir mão de pudores verbais, expor nossos segredos e insanidades, revelar nosso interior. Mas é o que devemos continuar fazendo. Despir nossa alma e mostrar pra valer quem somos, o que trazemos por dentro. Não conheço strip-tease mais sedutor."
Martha Medeiros

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Modo de usar-se

"Coitada, foi usada por aquele cafajeste". Ouvi essa frase na beira da praia, num papo que rolava no guarda-sol ao lado. Pelo visto a coitada em questão financiou algum malandro, ou serviu de degrau para um alpinista social, sei lá, só sei que ela havia sido usada no pior sentido, deu pra perceber pelo tom do comentário. Mas não fiquei com pena da coitada, seja ela quem for. Não costumo ir atrás desta história de "foi usada". No que se refere a adultos, todo mundo sabe mais ou menos onde está se metendo, ninguém é totalmente inocente. Se nos usam, algum consentimento a gente deu, mesmo sem ter assinado procuração. E se estamos assim tão desfrutáveis para o uso alheio, seguramente é porque estamos nos usando pouco. Se for este o caso, seguem sugestões para usar a si mesmo: comer, beber, dormir e transar, nossas quatro necessidades básicas, sempre com segurança, mas também sem esquecer que estamos aqui para nos divertir. Usar-se nada mais é do que reconhecer a si próprio como uma fonte de prazer. Dançar sem medo de pagar mico, dizer o que pensa mesmo que isso contrarie as verdades estabelecidas, rir sem inibição – dane-se se aparecer a gengiva. Mas cuide da sua gengiva, cuide dos dentes, não se negligencie. Use seu médico, seu dentista, sua saúde. Use-se para progredir na vida. Alguma coisa você já deve ter aprendido até aqui. Encoste-se na sua própria experiência e intuição, honre sua história de vida, seu currículo, e se ele não for tão atraente, incremente-o. Use sua voz: marque entrevistas. Use sua simpatia: convença os outros. Use seus neurônios: pra todo o resto. E este coração acomodado aí no peito? Use-o, ora bolas. Não fique protegendo-se de frustrações só porque seu grande amor da adolescência não deu certo. Ou porque seu casamento até-que-a-morte-os-separe durou "apenas" 13 anos. Não enviuve de si mesmo, ninguém morreu. Use-se para conseguir uma passagem para a Patagônia, use-se para fazer amigos, use-se para evoluir. Use seus olhos para ler, chorar, reter cenas vistas e vividas – a memória e a emoção vêm muito do olho. Use os ouvidos para escutar boa música, estímulos e o silêncio mais completo. Use as pernas para pedalar, escalar, levantar da cama, ir aonde quiser. Seus dedos para pedir carona, escrever poemas, apontar distâncias. Sua boca pra sorrir, sua barriga para gerar filhos, seus seios para amamentar, seus braços para trabalhar, sua alma para preencher-se, seu cérebro para não morrer em vida. Use-se. Se você não fizer, algum engraçadinho o fará. E você virará assunto de beira de praia.

Martha Medeiros

A alegria da tristeza

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir. Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora. Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento. Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida. Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada. Mario Benedetti - alegría de la tristeza

domingo, 23 de maio de 2010

Tudo passa...

Tudo passa. Me disseram que é verdade. Me disseram que um dia tudo acaba, a dor, o amor, a tristeza, a alegria... Até mesmo a amizade. E o que fica? O que fica guardado, e se eterniza em nós? Quando tu batestes a porta, eu respondi " - a casa é tua", tudo se esvaiu no ar? Quando as minhas, tuas, nossas queixas ficaram a mercê da boa e velha paciência, quem as cuidou? Se eu te falo tanto, o tanto quanto voce não consegue entender e repartir. É que te quero, e quero bem. E esse mesmo desejo que tenho, anda de mãos dadas com a esperança de que aquela história de que tudo passa, não passa de uma grande bobagem nossa.

domingo, 9 de maio de 2010

M.Ã.E

Mãe diz que é pra gente se cuidar.
Mãe diz que a gente come pouco.
Mãe diz que a gente come demais.
Mãe briga que a gente dorme mal.
Mãe dorme mal.
Mãe é linda.
Mãe é carinhosa.
Mãe enche muito.
Mãe é carente.
Mãe é exigente.
Mãe faz a gente sentir culpa.
Mãe sente culpa.
Mãe fica doente pela gente.
Mãe é capaz de matar ou morrer.
Mãe pode tudo.
Mãe não quer nada.
Mãe quer muito.
Mãe gosta de qualquer coisa.
Mãe não gosta de nada.
Mãe não reclama.
Mãe resmunga o tempo todo.
Tem mãe que é cega.
Mãe faz comidinha.
Mãe cozinha mal.
Mãe odeia cozinhar.
Mãe erra no sal.
Mãe não gosta de ouvir reclamação.
Mãe tem paciência de Jó.
Mãe perde a paciência.
Mãe bate.
Mas mãe apanha da vida o que for preciso para proteger a gente.
Mãe faz muita falta.
Mãe não deveria morrer.
Como princípio da vida, mãe é, apesar de santa, o paradoxo do bem e do mal que existe em todos nós.
Mãe é bacana.
Mãe é chata.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Parabéns Maria Clara! Quantas lembranças no teu terno olhar. Não me lembro mais, quanta amizade para estender-me em teus encantos de mulher, a delinear novas linhas para conseguir o dilema da mulher independente. Ademais, aproveito para saudar a tua data natalícia, 29 de abril, com a poesia da arte de viver, das suas esperanças, de tornar-se uma reflexão na construção da vida. A ARTE DE VIVER Não rotularás tua vida Futuro de sonho indecifrável Talvez fosses um enigma Nada mais desafias És história e eu projeto Sintas alegria de viver E galopes na imaginação Talvez com um nada Na montaria da amizade Limites ao olhar Para moldar a incerteza Com as pedras do desejo E tentes governar a vida Rotulando apenas Os sonhos que te saciam Renê Von Brown

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

S.A.U.D.A.D.E

Como todo bom e velho carnaval, o meu chegou ao fim, deixando lembranças, saudades, um gosto simutaneo de alegria e tristeza e levando consigo, um pouco de mim. Saudades do frevo, da alegria, dos abraços, dos maracatus nas ruas. Saudades das músicas, do cheiro, da chuva e dos sorrisos. Saudades de nós, da batucada, das ladeiras de Olinda, daquele perfume.Saudade do arsenal, da guia, do capibaribe, daquela casa na madalena, da rede na sala do apartamento do 3º andar. Saudades dos beijos, dos blocos, dos risos compartilhados, dos fogos e todo o cenário presente. Saudades do céu, das mãos, do cuidado, do vinho, das brincadeiras e da felicidade. Saudades do meu carnaval.
"Se este caminho não me ensinar nada de novo a partir de agora, ao menos aprendi algo importante: é preciso correr riscos." Brida - fragmento

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Sigo a vida conforme o roteiro, sou quase normal por fora, pra ninguém desconfiar. Mas por dentro eu deliro e questiono. Não quero uma vida pequena, um amor pequeno, um alegria que caiba dentro da bolsa. Eu quero mais que isso. Quero o que não vejo. Quero o que não entendo. Quero muito e quero sem fim. Não cresci pra viver mais ou menos, nasci com dois pares de asas, vou aonde eu me levar. Por isso, não me venha com superfícies, nada raso me satisfaz. Eu quero é o mergulho. Entrar de roupa e tudo no infinito que é a vida. E rezar – se ainda acreditar – pra sair ainda bem melhor do outro lado de lá.
Fernanda Mello

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O QUASE

Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
Luiz Fernando Verissímo

sábado, 2 de janeiro de 2010

Chegou a hora de Recomeçar!

Feliz Ano Novo! Fogos, luzes, abraços, amigos, beijos, família, sorrisos, lágrimas Velhas promessas, novas esperanças, Lembranças de momentos felizes, Lembranças daqueles que amamos e que por alguma razão, não estão conosco. Silêncio, em honra daqueles que natureza chamou, Instante de compartilhamento da dor das famílias, Instante de desejar que as feridas sejam rapidamente cicatrizadas, Que as lágrimas de cada uma dessas pessoas Sejam beijadas por anjos no Ano Novo. Feliz Ano Novo! Que nesse ano Deus nos ensine a Paz, e que estejamos todos prontos para ouvir, Que os nossos erros não sejam o nosso fardo, Mas a experiência para decisões melhores; Que nesse ano a religião não seja razão para o ódio, e que os inocentes sejam sagrados, Que as diferenças não justifiquem problemas, Mas que mostrem soluções diferentes; Que nesse ano toda criança possa brincar, e que elas tenham brinquedos verdadeiros, Que seus pais não justifiquem discórdia hoje, Mas que falem dos sonhos de um futuro feliz; Que nesse ano a força seja das boas palavras, e que as palavras sejam ouvidas, Que o poder não derrube paredes sobre as pessoas, Mas que destrua barreiras entre elas; Que nesse ano as nações sejam unidas, E que a união tenha significado e seja respeitada, Que os governantes não se esqueçam que a história não eterniza a vida, frágil e passageira, Mas apenas pensamentos e ações; Que nesse ano a natureza seja mãe, E que, como filhos, tenhamos por ela o amor e o cuidado devidos, Que as ações pelo Planeta não sejam assinadas apenas pelas nações que compreendem os problemas, Mas também por aquelas que os causam. Feliz Ano Novo! Que nesse ano possamos sonhar, E acreditar, de coração, que podemos realizar cada um de nossos sonhos, Que esses sonhos possam ser compartilhados pelo bem, E que eles tenham força de transformar velhos inimigos em novos amigos verdadeiros; Que nesse ano possamos abraçar, E repartir calor e carinho, Que isso não seja um ato de um momento, Mas a história de uma vida; Que nesse ano possamos beijar, E com os olhos fechados, tocar o sabor da alma, Que tenhamos tempo para sentir toda a beleza da vida, E que saibamos senti-la em cada coisa simples; Que nesse ano possamos sorrir, E contagiar a todos com uma alegria verdadeira, Que não sejam necessárias grandes justificativas para nosso sorriso, Apenas a brisa do viver; Que nesse ano possamos cantar, E dizer coisas da vida, Que não sejam apenas músicas e letras, Mas que sejam canções e sentimentos; Que nesse ano possamos agradecer, E expressar a Deus e a todos: “Muito Obrigado!”, Que nesse “todos” não sejam incluídos apenas os amigos, Mas também aqueles que, nos colocando dificuldades, nos deram oportunidades de sermos melhores. E assim começamos mais um Ano Novo, Um dia que nasce, um primeiro passo, um longo caminho, Um desafio, uma oportunidade e um pensamento: “Que nesse ano sejamos, Todos, Muito Felizes!